Crise no setor leva preocupação a salineiros da Região dos Lagos

O turismo ,  a crise do setor e a concorrência desleal levaram os produtores de sal da  Região dos Lagos à beira da falência. Segundo os produtores a dependência do clima e a perda da mão de obra  são as principais causas de o setor ter encolhido 90% na região. 

 As salinas da região existem há centenas de anos, interferindo diretamente na economia local. 

Começando neste mês e indo até março de 2020, a safra do sal é um período de muita espera pelos trabalhadores da Região dos Lagos. É nesta época do ano que a junção de muito sol, ventos fortes e pouca incidência de chuva resultam na maior produção desta matéria prima que é cartão postal da região.

Hoje existem seis salinas ativas: Ponta do Costa e Viveiros, em Cabo Frio; Flor de Figueiras, em Arraial do Cabo; e por fim, Vigilante, Almira e Parasal, em Araruama. A expressiva queda no número de salinas contradiz a trajetória de sucesso da atividade.

Para o Presidente do Sindicato da Indústria de Refinação e Moagem de Sal (Sindisal) Luiz Césio Caetano, o declínio das salinas na região pode ser atribuído ao fato de ser uma atividade que está sempre sujeita às condições do clima, então não há garantias de que será uma boa safra. Assim, os salineiros perdem mão de obra, que com as dificuldades de trabalho, acabam cedendo para o serviço nas praias, bastante forte no verão. Logo, a mão de obra para o trabalho pesado nas salinas, acaba ficando cara e escassa. Luiz Caetano também cita a questão da valorização imobiliária na região, que faz com que muitos produtores cedam suas terras para a venda.

A marca Sal Cisne, líder no mercado em seus 70 anos de existência, é única empresa que produz sal refinado no Estado no Rio e a única empresa no Brasil a utilizar processo industrial na fabricação de sal. Luiz Caetano diz que além de possuir salinas próprias – em Cabo Frio -, a Sal Cisne compra o sal produzido por outras salinas, fomentando assim, o mercado na temporada.

“As salinas que produzem sal grosso possuem uma atividade sazonal. A Sal Cisne compra o sal destas salinas. Já as da refinaria da empresa, trabalham o ano todo, pois produzem salmoura, que é um estágio anterior da cristalização do sal grosso. O processo de produção de sal refinado parte da salmoura, que é cristalizada em um processo industrial de evaporação térmica”, explica o Presidente da Sindisal, que aponta a importância do mercado para os interioranos: “A produção da região toda, hoje, é de cerca de 80 a 100 mil toneladas de sal ao ano. As salinas da Sal Cisne, que ficam em Cabo Frio, onde se concentra a maior parte da produção e de empregos no ramo, produzem cerca de 50 a 60 mil toneladas de sal ao ano. São 70 pessoas trabalhando nas salinas e cerca de 480 em todas as etapas de fabricação do sal refinado. Nas safras, o número de funcionários aumenta para 700.”

Atendendo a Sal Cisne, a Firjan SENAI capacita e forma profissionais para a indústria do sal fluminense, mantendo assim uma tradição de anos e ao mesmo tempo ajudando estes produtores a melhorarem seu desempenho e sobreviver à crise. Com 10 anos de existência, há uma oficina de aprendizagem instalada nas dependências da refinaria da Sal Cisne, com capacidade de atendimento de 25 alunos por turma. Ao todo, mais de 290 jovens já se formaram neste curso. Alguns exemplos dos cursos oferecidos pela Firjan para a aprendizagem destes profissionais, estão: Mecânico de Manutenção, Aperfeiçoamento para Operador de Caldeiras, Segurança na Operação Caldeiras e NR-10 Básico.

A gerente de vendas Andreia Marcia da Silva, é de família de salineiros e representa a salina Parasal, em Araruama. Ela conta que a empresa foi criada para haver uma maior legalidade e profissionalização do trabalho.

“Estamos apostando na venda de sal ensacado por se tratar de algo mais artesanal e uma alternativa para a crise que sofremos com a extensa e agressiva extração de sal no norte, e uma das principais dificuldades é a venda ilegal de sal por parte de atravessadores que forçam empresas como a Parasal, abaixar os preços para conseguir se manter por conta desta concorrência desleal”, revela.

Segundo Andreia, não são todas as pessoas que possuem a firmeza em persistir numa profissão como esta. Quando passaram-se as gerações de salineiros, muitos de seus filhos abandonaram os negócios ou deixaram ir acabando aos poucos. Ela conta que por conta da diminuição dos preços, muitos deles buscaram outras fontes de renda, e isto resultou na diminuição expressiva na quantidade de salinas na região: “A quantidade de salinas que existiam 20 anos atrás, comparando com hoje em dia, conta com cerca de 90% de diminuição destes pólos. Outro motivo que deve ser lembrado é a poluição da Lagoa de Araruama, que influencia diretamente na produção, dificultando a salinização em certos estágios da produção”, pontua.

A Analista de Estudos Econômicos da Firjan, Julia Rangel Pestana, ressalta a importância de empresas como a Sal Cisne para desenvolver a economia no interior do Estado.

“Não são só os empregos diretos, como também a cadeia e os serviços. O comércio se desenvolve próximo da indústria. As pessoas que trabalham ali consomem, precisam de serviço bancário, restaurante, mercado. É Importante destacar também, quando se fala em desenvolvimento regional, a saúde financeira dos municípios. São empresas que pagam tributos, promovem aumento de arrecadação. Desenvolvem outras atividades e geram receita maior para as prefeituras”, pondera a especialista.

Extração na região ocorre desde o período colonial

A cultura do sal na Região dos Lagos começou ainda no período colonial, ganhando força a partir da segunda metade do século XIX. Desde a sua produção artesanal até a sua ascensão industrial, por volta de 1920, os municípios de Cabo Frio, Araruama e São Pedro da Aldeia construíram 109 salinas. Em 2008, as salinas da região produziram mais de cinco milhões de toneladas de sal. Número discrepante com a realidade atual.

“Na minha visão, a qualidade do nosso sal marinho é reconhecida desde os primórdios do processo de colonização. Há questões a serem ponderadas e que respondem diretamente a fatores como demanda e custos menores em ter uma produção e distribuição local para o atendimento em uma escala definida. As salinas em Cabo Frio mostraram ao longo do tempo, o retrato mais cristalino das diferenças sociais em uma cidade interiorana. De um lado a elite salineira e do outro os trabalhadores da extração, moagem e estiva. Foi importante como ancoragem econômica até o final do ciclo das grandes indústrias na região, tornando-se atividade complementar e localizada desde então”, esclarece o historiador e Secretário de Turismo de Cabo Frio, Paulo Cotia, que acrescenta sobre como a forte história das salinas na região pode contribuir para o turismo da mesma: “Esta ligação é estética, mas ainda é necessário construir esse elo de ligação e, para isso, história e cultura são fundamentais. Quem sabe um equipamento de memória material e imaterial consolidasse um pouco mais essa ligação, já que muitas salinas foram desativadas e não podem mais ser visitadas. As remanescentes poderiam estruturar programas de visitação e muito mais.”

De fato, a imagem da Região dos Lagos como um polo da maior produção de sal do País ainda vive no imaginário das pessoas. Mas para a representante da Parasal, Andreia Márcia da Silva, esta imagem não condiz mais com a realidade: “Por conta da extensa diminuição de salinas, fica muito difícil continuar sendo esse cartão postal que muitos veem mais com uma imagem abstrata da realidade. Em ponto de vista econômico, somos a renda de muitas famílias, e por eles também não desistimos de nossos sonhos”, finaliza.

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